A estratégia de Bolsonaro

O que explica o aumento da popularidade em meio à tragédia sanitária, econômica e social?

Bolsonaro está de boa. Os mortos pela Covid-19 só aumentam. E sua popularidade também. A estratégia tem dado certo. Como é possível? Em que momento o Brasil se transformou num país tão aparentemente incompreensível? Bem, vamos aos dados, que são sempre aqueles que mais bem nos fazem compreender o que parece incompreensível.

Sabemos que Bolsonaro conta com uma base fiel de apoio, mas e o resto da população que continua a sustentá-lo no poder, apesar dos mais de 100 mil mortos? As pesquisas que desenvolvo em parceria com Camila Rocha indicam: o ex-capitão entendeu vários de seus pontos fracos e tem trabalhado neles.

A popularidade aumenta em grande medida no Nordeste. A razão para esse crescimento entre os pobres é a renda emergencial. Por favor, não me venham agora com essa de que pobre de direita é burro. Camila Rocha e eu realizamos entrevistas com integrantes das classes C e D desesperados por terem perdido o emprego e com muito medo da crise econômica. Não são privilegiados, como muitos de nós. Quando não entra dinheiro, não tem como pagar boleto nem comida. Muitos, inclusive, reconhecem a irresponsabilidade de Bolsonaro na pandemia, mas são os 600 reais que permitem a sobrevivência. A maioria não faz ideia de que esta medida seja de autoria da oposição. E o governo que possibilita pôr comida na mesa. Em vez de pensar que milhões de brasileiros empobrecidos são burros, talvez deveríamos pensar no que a esquerda pode fazer para tirar o monstro do poder. Bolsonaro entendeu que, para manter ou aumentar sua popularidade, os 600 reais são um elemento fundamental – daí também suas viagens ao Nordeste, próxima fronteira eleitoral a atacar. A questão é que o auxílio emergencial entra em rota de colisão com a agenda do ministro Paulo Guedes, e sabemos que Guedes é imprescindível para Bolsonaro manter o apoio dos empresários e do capital nacional e internacional. Pobres ou ricos? O apoio de uns ou o de outros? Não será fácil, mas tenho receio de que Bolsonaro e Guedes encontrem uma solução no meio-termo. O teto de gastos está aí, sabemos, mas também sabemos que há formulas econômicas para tudo. Talvez Bolsonaro decida continuar com o auxílio (mesmo com valores mais baixos) ao mesmo tempo que dá carta branca para uma agenda intensa de privatizações e de redução dos gastos. Começa com o corte de 4,2 bilhões de reais no orçamento do Ministério da Educação, mas outros virão. Ou seja, o auxílio poder ia se fazer compatível com as reformas de Guedes.

Uma das críticas que mais aparecem entre os bolsonaristas entrevistados por nós é o fato de o presidente ser violento demais. Teria um tom autoritário e polêmico que em nada combina com o decoro e a moderação exigidos pelo cargo. Durante a campanha eleitoral, o tom agressivo foi tolerado e, inclusive, comemorado, mas muitos desses mesmos bolsonaristas que o aplaudiam hoje dizem que, no governo, Bolsonaro não pode continuar a agir dessa forma. Bolsonaro entendeu o recado e parece que se auto domesticou ou permitiu ser domesticado. Tem fechado a boca e com a boca fechada sua popularidade sobe.

Em paralelo, um dos pontos fundamentais dessa estratégia de “moderação” é o desaparecimento público dos filhos. Até entre as bases bolsonaristas mais radicais o papel dos filhos é muito mal avaliado. Estes são definidos como “moleques”, “irresponsáveis” e principais fatores de instabilidade do governo. Não sei se vocês perceberam, mas os filhos se tornaram quase invisíveis, diminuiu muito seu papel nas redes sociais. Outros que fecharam a boca e fizeram a popularidade do pai subir.

Bolsonaro tem tido bastante sucesso ao jogar a culpa dos infectados e mortos pela Covid-19 nas costas de governadores e prefeitos. A estratégia negacionista e seu discurso de que salvar a economia é incompatível com fazer isolamento têm dado certo, tanto que 47% dos brasileiros acreditam que ele não tem culpa pelas vítimas da pandemia.

Por último, mas não menos importante, estamos nós, o campo progressista. Nosso discurso não chega a grande parte da população, pois não temos canais de comunicação (não temos a mídia, não temos as redes e não temos o território). Nas poucas vezes em que o discurso consegue chegar, é visto com enorme desconfiança, pois nós, como interlocutores, fomos criminalizados e descartados nesses últimos anos. Talvez tenhamos perdido tempo demais ao embarcar em frentes suprapartidárias que não estavam pensadas para dar certo, em possibilidades de impeachment que não iam funcionar, enquanto Bolsonaro negociava sua estabilidade com o Centrão e Rodrigo Maia. Bolsonaro está de boa. E os mortos continuam a aumentar. Onde estamos nós?

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