Artigo: Cuba – Exemplo de Humanidade

Por pouco mais de quatro meses (do fim de janeiro a início de junho deste ano) estive vivendo uma incrível experiência em Cuba junto a minha companheira Priscila Kelly. Conseguimos passar em um exaustivo processo seletivo para um programa de mestrado em Ciências Sociais na FLACSO-Cuba (adscrita na Universidade de Havana). Infelizmente, nossas atividades acadêmicas foram suspensas e como só devem retornar em setembro, voltamos para o Brasil (para João Pessoa, onde residimos). O programa é em desenvolvimento social, assim que estivemos todo o tempo com nossa atenção voltada a diversos aspectos da sociedade cubana. Essa postura nos ajudou a ter boa compreensão do porquê da crise sanitária mundial ter sido tão bem controlada neste país, e é esta visão que pretendo expor aqui.

Antes de tudo, informo que este texto não é puramente técnico. Me abstenho aqui de uma fria produção científica, ao mesmo tempo que adoto uma mirada um tanto passional, com relatos bem pessoais. Tenho certeza que desta forma conseguirei ser mais fiel ao retrato cubano no combate à epidemia. Pois, ao deparar-se com uma sociedade onde se pode circular a pé (em qualquer horário e lugar) sem o menor receio de sofrer um assalto ou quaisquer outros tipos de violência, de saber que não há desemprego, morador de rua, analfabetismo…, como não se encantar com tudo isso e não ter um filtro nos olhos para certos aspectos negativos? Se os fosse relatá-los aqui, poderia ser mais técnico mas me arriscaria a passar a falsa impressão de que alguns problemas são relevantes ou comprometedores ao sistema. Prometo abordar problemas e falhas no próximo relato. Também quero alertar que seriam necessárias análises minuciosas de diversas políticas e estruturas, estatais e sociais, e também conhecer muitos outros aspectos culturais e históricos para que se possa entender a conjuntura cubana e, pontualmente, a forma como está passando por esta crise sanitária.

Discorrerei um relato cronológico, seguido das medidas estatais e posteriormente uma visão pessoal da postura da população em geral.

Início e Números

No dia 11 de março foi reportado pelo MINSAP (Ministerio Nacional de Salud Pública de Cuba) que três turistas italianos (de um grupo de quatro) foram diagnosticados positivos para o novo Corona Vírus. Este grupo desembarcou na Cidade de Havana no dia 9, trasladou-se no mesmo dia para a cidade de Trinidad (315km da Cidade de Havana). No dia 10 apresentaram sintomatologias respiratórias, foram prontamente atendidos em um hospital. Um desses turistas foi o primeiro caso fatal (dia 18 de março) da Ilha1, um senhor de 61 anos com antecedentes de problemas respiratórios. No dia 23 de março foi registrada a primeira alta médica, mas já um acumulado de 48 casos confirmados. No dia 8 de abril o MINSAP anuncia que a epidemia entra na fase de transmissão comunitária em oito províncias. Até então todos os casos confirmados tinham vindo do exterior ou tiveram contato com quem houvesse chegado (muitos destes eram estrangeiros, turistas ou residentes). O pico de contágios ocorreu no dia 24 de abril, alcançando 847 casos ativos. Neste momento se contava um acumulado de 1.337 diagnósticos positivos, 2 evacuados, 437 altas e 51 falecidos, além de 3.462 pessoas ingressadas em Centros de Isolamento.

Governo Responsável, Humano e Atuante

Em 29 de janeiro foi aprovado pelo Conselho de Ministros o Plan para la Prevención y Control del Coronavirus, um dia antes da Organização Mundial de Saúde declarar a situação epidêmica da China2. Este fato (dentre muitíssimos outros) demonstra o costume cubano de preparar-se antecipadamente para o enfrentamento de adversidades. O presidente Miguel DíazCanel faz um ótimo apanhado histórico (em seu artigo Gestión gubernamental y ciencia cubana en el enfrentamiento a la COVID-19) de como o governo (desde a revolução de 1959) sempre desenvolve políticas e toma decisões em colaboração com cientistas e sem nunca perder a alma solidária e a humanidade. Ressalto aqui que Cuba é uma ilha assolada por frequentes intempéries (temporais e ciclones) e o brutal e covarde bloqueio econômico imposto pelos EUA desde 1961 (intensamente endurecido no governo Trump). Julgo que Cuba consegue superar a atual pandemia com menos impactos que quase todos os outros países, justamente por se fundamentar na ciência e na solidariedade.

O governo organizou cooperativas têxteis para a produção de máscaras3, os laboratórios farmacêuticos Biocen (Centro Nacional de Biopreparados) e Cubafarma interromperam pesquisas em andamento para dedicarem-se integralmente à produção em larga escala dos medicamentos(como o Interferón alfa-2b5 e o Biomodulina T, ambos desenvolvidos com tecnologia cubana) que já tiveram sua eficácia comprovada na China, estruturou hospitais para receber as pessoas contaminadas e centros de isolamento para os casos suspeitos, formação e capacitação a todos os profissionais da saúde e orientações para toda a população (nas escolas, rádio, televisão, sites oficiais e contas oficiais em redes sociais). A transparência com que as informações são divulgadas é impressionante! Talvez esteja eu impactado por vir da realidade brasileira em que falsas notícias são a regra e é preciso aprender a garimpar as fidedignas. Diariamente o MINSAP lança um boletim6 com quantos novos casos foram confirmados no dia anterior.


(Quadros como este, são divulgado diariamente às 10h desde o início da crise)

De cada um destes casos são informados a idade, cidade onde reside, provável forma de contágio, evolução dos sintomas, com quais pessoas teve contato (familiares, amigos, colegas de trabalho…) e como estas pessoas estarão sendo acompanhadas (se nas suas residências ou em centros de isolamento). No mesmo boletim ainda se informa quantos casos suspeitos estão nos centros de isolamento, quantos sendo acompanhados em casa, quantos foram curados e alguns detalhes sobre os falecidos (idade, onde residia, se tinha e quais antecedentes de outras enfermidades e ainda como foi a evolução do tratamento até o trágico desfecho). Desta forma não há brecha para fake news ou especulações distorcidas (que infelizmente também circulam em redes sociais) dispersarem. Tudo é informado sem morbidez, apesar de ser perceptível o pesar ao informarem os falecimentos.

No Brasil tanto militamos para que as pessoas sejam tratadas com humanidade e tenho a impressão que em Cuba vão muito além. As pessoas recebem um tratamento com cuidado e amor normalmente dispensado a amigos ou parentes. Os depoimentos dos pacientes recuperados e dos que passam pelos Centros de Isolamento (pretendo descrever melhor essas estruturas em outro relato) são o que de mais emocionante se pode ver. O presidente Díaz-Canel insistentemente enfatiza que a transparência é fundamental6. E não é por pensar se essa atitude favorece ou prejudica a economia, e sim para que todas e todos estejam cientes da real situação que o país se encontra. Então resulta em uma população bem informada da verdadeira dimensão do problema que sabe não haver motivo para pânico ou desespero e segue consciente as orientações de enfrentamento à crise. Não entra mais de uma pessoa em quaisquer estabelecimentos comerciais ou banco e nas filas para entrar se respeita a distância de dois metros, ninguém sem máscara na rua (ninguém mesmo!!). Diversas outras importantes medidas são tomadas, como o controle de distribuição de produtos de primeira necessidade evitando inflação (em alguns estabelecimentos se vê que os preços dos produtos estão pintados numa parede há mais de ano) ou escassez, lavagem das principais avenidas com água clorada e sabão, visita domiciliar (com muita frequência) de profissionais e estudantes da saúde, fechamento de lanchonetes e restaurantes para comer no local e tantas outras que se impossibilita elencar nesta (já não tão) breve análise.

No dia 18 de junho já foi posto em prática o “Plano de Desenvolvimento post COVID-19”com as medidas de flexibilização. Nota-se a responsabilidade já que os motivos das decisões foram detalhadamente explicados. Levaram em consideração a taxa de incidência, índice reprodutivo, casos ativos, número de casos positivos com fonte de infecção conhecida e eventos de transmissão local. Apenas duas províncias não entraram nessa fase.

Solidariedade

A solidariedade, comum ao caráter cubano, ficou ainda mais evidenciada. Lembrando dos passageiros do cruzeiro inglês e das pessoas de outros 26 países que as 34 valentes brigadas médicas foram socorrer em um verdadeiro ato de amor ao próximo. Quem não é profissional da saúde que já tem clareza da sua missão, também não titubeia nem mede esforços para ajudar a quem quer que precise. Bem antes das nossa aulas serem suspensas, logo depois que chegamos em Cuba, tive dois dias de febre (provavelmente por alguma intoxicação alimentar) e ao justificar a falta a notícia correu e começaram a me ligar professores, a coordenadora do curso, a diretora da faculdade, a secretária geral… todos perguntando como eu estava e o que podiam fazer para ajudar. Priscila foi pedir remédio a um amigo que fizemos (aqui não se compra nem aspirina em farmácia sem receita médica) e mais uma vez correu a notícia da minha febre. Vizinhos, conhecidos e alguns amigos me enviaram antitérmico, canja, chá e também ligaram preocupados por minha saúde. Ao ser decretada a quarentena todas essas pessoas voltaram a nos ligar perguntando se nos faltava algo e nos presentearam com muitas coisas, que também tentamos retribuir. Também é um fenômeno contagiante! Sempre nos contam como estão ajudando e sendo ajudados por vizinhos, amigos e parentes. O bom humor, próprio de todo povo latino, nunca se faz ausente nestas terras caribenhas. Como diz o poeta Siba: “Tantos povos se cruzam nessa terra que o mais puro padrão é o mestiço / deixa o mundo rodar que dá é nisso / e a roleta dos genes nunca erra”. Ô povo espontâneo e festeiro pra falar e rir alto, que nos fazia sentir em casa no nordeste! Entendo que eles não comungam da reciprocidade como forma de superação das dificuldades (das quais a principal é o bloqueio criminoso do governo estadunidense) e sim porque é natural. Não seguem as orientações do ministério e da OMS por imposição, o fazem por querer bem aos outros e a si mesmos. Embora seja creditado a algumas figuras históricas como Fidel, José Martí e Che Guevara (que não seja menosprezada a fundamental importância dos seus feitos) a independência do povo cubano da Espanha, dos EUA e do capitalismo se deu pelo fato dos mais belos valores humanos terem sido despertados (naturais a nós brasileiros também, mas ainda pouco aflorado) ao ponto desse espírito solidário ser o motor que o levou à liberdade e que também o está guiando para ser do território livre do vírus que assola todo o mundo, do modo menos sofrido possível.

Rildo Simões





1MINSAP – https://salud.msp.gob.cu/?p=4222

2BERMUDES, Miguel Díaz-Canel. JOVER, Jorge Núñes. Gestión gubernamental y ciencia cubana en el enfrentamiento a la COVID-19. Anales de la Academia de Ciencias de Cuba, Volumen 10, Número 2. Ciudad de La Habana, 2020. Disponível em <http://www.revistaccuba.cu/index.php/revacc/article/view/881/886>. Consultado em 18 de junho de 2020.

2Granma – http://www.granma.cu/cuba/2020-03-13/ministerio-de-industrias-indica-produccion-de-unmillon-de-nasobucos-en-64-talleres-de-cuba-13-03-2020-15-03-41

3Granma – http://www.granma.cu/cuba-covid-19/2020-04-14/biomodulina-t-uno-de-los-22-medicamentoscontra-la-covid-19-en-cuba-14-04-2020-22-04-57

4Granma – http://www.granma.cu/cuba-covid-19/2020-03-19/el-interferon-que-ayuda-a-tratar-la-covid-19de-su-origen-hasta-hoy-19-03-2020-23-03-09

5MINSAP – https://salud.msp.gob.cu/?p=4939

6Presidencia República de Cuba – https://twitter.com/PresidenciaCuba/status/1248071395759788033

7Presidencia República de Cuba – Nota informativa sobre el inicio de la primera etapa y fase 1 de la recuperación pos COVID-19 – https://www.presidencia.gob.cu/es/noticias/nota-informativa-sobre-el-iniciode-la-primera-etapa-y-fase-1-de-la-recuperacion-pos-covid-19/

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