Entrando na Era do Novo Normal

Por Ayrton Centeno*

Para dizer a verdade – e já brigando com o título da coluna – ingressamos na Era do Novo Normal faz algum tempo. Primeiro com o dedão do pé como quem, na praia, experimenta para ver se a água não está muito fria. Estava glacial e mesmo assim enfiamos o resto do pé. E assim ficamos, imitando uma dessas aves pernaltas.

Agora, oficialmente a partir deste 1º de janeiro que chega com a faca nos dentes e exalando hálito de urubu, vamos meter o pé que falta. Ou os quatro pés como insinuam The New York Times, Le Monde, El País, Le Figaro, Libération, Deutsche Welle e o restante daquela imprensa a soldo de Moscou, Havana, quem sabe Pyongyang.

O Novo Normal insinuou-se devagar, debaixo de incredulidade geral, lá em 2013. Foi quando a direita sequestrou e jogou em cárcere privado os protestos contra o aumento das passagens de ônibus. Então, apareceram senhoras ajaezadas pedindo a volta dos milicos, seguidas por massarandubas reivindicando algo como “intervenção militar democrática”. Era o Novo Normal dando as caras. E as caras que deu não eram exatamente amistosas. Traziam rilhar de dentes, testa estreita, beiço caído, cabeça raspada.

O Novo Normal se caracteriza por fazer, dizer e ser o contrário do que afirma. Ou lidar com postulações opostas como se fossem gêmeas siamesas. Os últimos cinco anos serviram para sua consolidação. 2019 apresenta-se como o Grande Salto para o Passado. Anda-se para a frente, caminha-se para trás. 50 anos em cinco. De marcha a ré.

Sob a égide do Novo Normal, o Judiciário está dispensado de seguir a Constituição, aquele traste empoeirado de 1988. É possível, por exemplo, condenar sem culpa provada. E inocentar culpados gravados e confessos. Tudo depende da afinidade do réu com seus julgadores. É a Justiça à la carte.

Se o Supremo não dá a mínima para a lei maior, é bastante obediente aos generais. Sem cerimônia, recebe pitos da caserna. E da mídia. E mesmo do filho do presidente. “Para fechar o STF basta um soldado e um cabo”, advertiu Eduardo Bolsonaro. A reação dos ministros foi tímida, quase um muxoxo. Sinal que o Supremo não é guardião de si mesmo, que fará da Constituição.

Opera-se um impeachment sem crime de responsabilidade sob a acusação de “pedaladas fiscais”, praticadas por todos os antecessores de Dilma e imediatamente repetidas pelo seu sucessor. Sem percalço algum.

Episódios encerrados no século anterior podem ser invocados para motivar decisões presidenciais no presente. Como a Guerra Fria. Nunca houve tanto anticomunismo e tão pouco comunismo em Pindorama. Para haver, é dispensável existir. Basta querer que haja. Então, excomungam-se os infiéis. E se entope um governo com generais. São nove. Mais do que qualquer uma das cinco gestões da ditadura de 1964.

Versátil, o Novo Normal também se expressa como comédia. Dois dos futuros ministros foram escolhas do ex-astrólogo Olavo de Carvalho, tipo levado na troça em geral mas levado muito a sério pela estirpe dos Bolsonaro. Já acusou Barack Obama de ser agente russo, acha que cigarro não dá câncer e manifesta-se cético quanto ao sistema heliocêntrico. Porém, mais inacreditável de que alguém duvide de que a Terra gira em torno do Sol, é um governo girar em torno de Olavo.

Fã de Trump, um dos herdeiros do clã, Eduardo, serviu de garoto-propaganda da reeleição do republicano deixando-se fotografar com um boné da campanha trumpista. Foi tratar das relações EUA-Brasil , embora não estivesse legalmente habilitado para tanto. Normal.

Ainda dentro da programação circense, outro tiete de Trump, o chanceler Ernesto Araújo, pinçado por Olavo no rodapé do Itamarati, arranjou atritos com os países árabes, a Venezuela e a Rússia. Ele enxerga no presidente norte-americano um paladino do Ocidente, um cruzado pós-moderno, uma espécie de Ricardo Coração de Leão com capacete laranja.

Aliás, por falar em laranja, cumpre lembrar que, nas bordas da posse, permanece entocado e intocado o fiel escudeiro dos Bolsonaro. E a mídia, sempre tão sôfrega, apenas boceja ao ouvir seu nome. Espera-se que, no dia 1º. nosso bom Fabrício Queiroz apareça para abrilhantar a cerimônia.

Mas se não fôr, estará lá Ricardo Salles, o ministro do Meio Ambiente recém nomeado. E recém condenado por suposta fraude ambiental. Ou seja, diversão garantida ou seu dinheiro de volta.

Salles não é um ponto fora da curva. O governo sem corrupção assume com nove ministros suspeitos de corrupção. Sem contar o chefe do governo, sua consorte e sua prole. O presidente sem mácula assume maculado. O presidente antissistema assume aliado ao sistema. O que diz ser não é. O que nega ser é justamente o que é. É o Novo Normal em estado de êxtase. Temos um grande passado pela frente.

Ayrton Centeno é Jornalista, trabalhou, entre outros, em veículos como Estadão, Veja, Jornal da Tarde e Agência Estado. Documentarista da questão da terra, autor de livros, entre os quais “Os Vencedores” (Geração Editorial, 2014) e “O Pais da Suruba” (Libretos, 2017). Fonte: Brasil de Fato

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