O discurso contra os indesejáveis

Por Paloma Gomes*

No início de 2018 um sonho me impactou. Estava em um trem ocupado também por outras pessoas. Não sabíamos o destino final, mas pressentíamos que não seria bom. Num relance vejo entidades do candomblé, elas seguiam comigo no trem. Era certo que regressávamos a um período tenebroso, mas a presença delas era a certeza de que, apesar de tudo, resistiríamos.

O sonho lembrou-me da linha de trem que levava a Barbacena/MG. Estação e destino final daqueles que seriam internados no Hospital Colônia de Barbacena. Para lá eram levadas pessoas como Maria de Jesus, conforme narra a escritora Daniela Arbex no livro Holocausto Brasileiro:

“Maria de Jesus, brasileira de apenas 23 anos, teve o Colônia como destino, em 1911, porque apresentava tristeza como sintoma. Assim como ela, a estimativa é que 70% dos atendidos não sofressem de doença mental. Apenas eram diferentes ou ameaçavam a ordem pública. Por isso, o Colônia tornou-se destino de desafetos, homossexuais, militantes políticos, mães solteiras, alcoolistas, mendigos, negros, pobres, pessoas sem documentos e todos os tipos de indesejados, inclusive os chamados insanos. A teoria eugenista, que sustentava a ideia de limpeza social, fortalecia o hospital e justificava seus abusos”.

Segundo a escritora, estima-se que pelo menos 60 mil pessoas morreram entre os muros do Hospital.

Certo é que essas representações poderiam ter se encerrado no dia seguinte ao sonho ou quem sabe na sala de uma analista, porém, ao longo de 2018, jamais poderia imaginar que a ampliação do discurso contra os chamados indesejáveis seria a base de uma plataforma de programa que saiu vitoriosa na eleição presidencial.

Frases do então candidato à Presidência da República pelo PSL exaltando a tortura, o banimento e a prisão se tornaram a ordem do dia. E elas têm sido replicadas com veemência contra a população negra, LGBTI, mulheres, integrantes de partidos políticos e de movimentos sociais.

Antes mesmo do fim do Governo Temer vemos a força destrutiva desse discurso. Um exemplo é o rompimento, por parte do Governo cubano, da parceria que possibilitava uma das políticas de saúde mais importantes do Brasil, o Programa Mais Médicos.

O fim da parceria se deu após uma série de ameaças feitas pelo candidato à presença dos médicos cubanos no país. Como consequência, estima-se que 29 milhões de pessoas deixaram de ser atendidas, muitas delas negras, indígenas e pobres.

Ao ser indagado sobre o fato, o Presidente eleito comparou a situação dos médicos cubanos à escravidão. “Não podemos ser coniventes com o trabalho análogo a escravidão. É uma questão humanitária.”, disse durante visita ao Grand Slam de jiu-jitsu.

Chama atenção a repentina preocupação do Presidente eleito com a pauta humanitária e em especial com o tema escravidão.

Em julho deste ano, no Programa Roda Viva, indagado sobre qual seria sua proposta para reparar a dívida histórica com a escravidão, respondeu: “Que dívida? Eu nunca escravizei ninguém”.

A negação da história do país concomitante a falas racistas compõem, há anos, o discurso do Presidente eleito. Em 2017, em palestra no Clube Hebraica, fez discurso que poderia muito bem constar em um livro de história para exemplificar a compreensão daqueles que praticavam o tráfico negreiro: “Fui num quilombo em Eldorado Paulista. Olha, o afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas. Não fazem nada! Eu acho que nem para procriadores servem mais.”

Estima-se que 4,8 milhões de negros foram escravizados e destinados ao Brasil nos porões de navios negreiros entre 1500 e 1850. Amontoados em locais sem ventilação e sofrendo os mais diversos tipos de violência, os que chegaram com vida ao Brasil trouxeram seu conhecimento, sua força, sua fé e os saberes populares de diversas nações.

Ainda hoje os dados de violência contra a população negra no Brasil são alarmantes. Segundo o Atlas da Violência de 2018, organizado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea)1, entre 2006 e 2016 a taxa de homicídios de negros cresceu 23,1%. Para o instituto a conclusão é “que a desigualdade racial no Brasil se expressa de modo cristalino no que se refere à violência letal e às políticas de segurança”.

Tenho certo que, como no sonho, a nossa ancestralidade nos acompanha neste momento. A travessia de mais essa correnteza nos convoca a olhar para nossas raízes e para nossa história. Sabemos que, como para os que ocuparam os trens e os navios, existir sempre foi e sempre será uma forma de resistência.

Paloma Gomes é advogada.

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