Autocrítica no partido dos outros é colírio

Por Ayrton Centeno*

Um estrangeiro distraído que desembarcar no Brasil ficará impressionado ao ouvir falar tanto em autocrítica. Julgará não existir no planeta alguém mais fascinado pela técnica de expiação do que o brasileiro. À primeira vista. Um segundo olhar, mais apurado, perceberá uma particularidade neste clamor: todos querem autocrítica mas apenas do Partido dos Trabalhadores.

De preferência, publicamente, no meio da rua, rasgando suas vestes, num espetáculo de autoflagelação, expondo-se à execração nacional como escadaria para o céu da redenção. Uma catarse para exorcizar os demônios que o conduziram ao mau caminho e para trazê-lo de volta à senda dos bons e dos justos. Parece atraente. Pelo menos, do ponto de vista dos autores da receita.

É a toada que, desde algum tempo, percorre a mídia empresarial, estendendo-se por setores à direita, ao centro e, como não poderia faltar, à esquerda do espectro político. Mas autocrítica é um negócio tão bom que todo mundo deveria fazer. Sem exceções. Parece indevido que apenas um grupo, entidade ou facção goze plenamente as vantagens de tão saudável e revigorante exercício depurativo. Seria uma injustiça não estender seus benefícios aos demais cristãos. Todos os pecadores, afinal de contas, merecem a salvação.

E se estamos tratando de justiça deveríamos, de imediato, propor uma ordem de entrada para os exorcismos, para que a autocrítica de uns não empane a dos outros. Poderíamos adotar, por exemplo, o critério alfabético. Faria-se a chamada e os convocados se apresentariam em praça pública com as costas nuas e o chicote nas mãos para bem purgar seus malfeitos. Ou o cronológico. Instituições mais antigas – e portanto mais necessitadas da autocrítica – rumariam primeiro ao pelourinho da opinião pública. Nenhum das metodologias favoreceria o PT, sigla que tantos gostariam ver furar a fila.

DEM, MDB, PSDB, PP, PSL seriam algumas das legendas a desfrutarem da primazia graças à posição privilegiada no alfabeto. Suas lideranças discorreriam sobre as propinas das privatizações, caixa 2, compra da reeleição de FHC, porto de Santos, malas de dinheiro, contas na Suíça, fraudes eleitorais. Sua remissão seria a primeira a ocupar as manchetes dos jornalões e os preciosos minutos do Jornal Nacional. Mudando-se o sistema, a cronologia também não correria o risco de favorecer os petralhas.

Optando-se pelo sistema cronológico, caberia a palavra à Arena, ao MDB e ao PDS. Também, considerando-se o tempo como senhor do processo, a imprensa teria que contar como e porquê apoiou os 21 anos de ditadura, como elegeu Collor, como fez que não viu a privataria da Era Tucana onde, aliás, também estava metida.

Seria de bom grado também ouvir o Supremo sobre sua vassalagem ao regime militar, sua conivência com o golpe de 2016 e sua covardia perante as diatribes da estirpe dos Bolsonaro.

E, nunca esquecendo, seria bastante educativo ouvir as forças armadas sobre as prisões, torturas e assassinatos durante o tempo que mandaram e desmandaram neste pobre país tão necessitado de autocrítica.

Ayrton Centeno é Jornalista, trabalhou, entre outros, em veículos como Estadão, Veja, Jornal da Tarde e Agência Estado. Documentarista da questão da terra, autor de livros, entre os quais “Os Vencedores” (Geração Editorial, 2014) e “O Pais da Suruba” (Libretos, 2017).

Fonte: Brasil de Fato

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