Fazer o que tem que ser feito na reta final

Por Artur Araújo*

Tanto quanto seja “científico” e razoável projetar a fotografia das pesquisas de intenção de voto para formar o quadro mais provável dos resultados das urnas, o cenário eleitoral indica risco crescente de vitória eleitoral da mistura letal, para os trabalhadores, de neofascismo com liberalismo sem freios. Momentos como este são como terreno fértil para o surgimento das tentações das soluções mágicas, das precipitações voluntaristas, dos “bem que eu disse” e de paralisia pela frustração de “certezas” prévias. Tudo isso em nada ajuda e nada disso é o que me leva a dar os palpites amadores que seguem.

Alguns elementos de análise surgem com força a partir da leitura atenta dos relatórios dos institutos de pesquisas. O primeiro deles, a meu juízo, é o esgotamento do apelo ao passado. Se a associação da chapa Haddad/Manu com Lula e com os “tempos bons”, de 2006 a 2013, teve o incontestável mérito de levar a candidatura a patamares altamente competitivos, evidentemente não basta mais, por não responder a contento à expectativa mais presente entre os eleitores: como superar o presente horrível e almejar um futuro bem melhor?

Nos dados do Datafolha surge com vigor uma imagem de repulsa à vida como ela é no Brasil atual: 68% dos eleitores “com raiva”; 78% “desanimados; 79% “tristes” e brutais 88% “inseguros”. Responder objetiva e claramente a esse estado de espírito, via propostas imediatas de superação, é a primeira das coisas a ser feita por quem quiser ter votos em profusão.

Um segundo alerta é o das sérias dificuldades que as candidaturas progressistas têm no enfrentamento do apelo à “moral e bons costumes”, esse biombo que a turma do capitão tem utilizado com maestria para ocultar seu programa econômico e social, cuja meta é a terra arrasada nos quesitos empregos, salários, serviços públicos, direitos, desenvolvimento e soberania nacionais. A facilidade com que manipularam a “narrativa” das vibrantes manifestações de multidões do #EleNão – potencializada pela indesculpável falha das candidaturas do Progresso em fazer sua contraparte – é indicador de que a aposta no conservadorismo de grande parcela da população brasileira traz dividendos eleitorais e de que esse é um território em que a Ordem tem vantagens competitivas inegáveis.

Como as propostas do Progresso neste campo são fortemente contraintuitivas e se chocam com o senso comum ideologicamente fabricado, penso que este é um território em que o melhor a fazer é fazer pouco, priorizando em contraponto as proposições sobre a melhoria da vida material.

Há, ainda, uma terceira barreira a ser enfrentada: a realidade do “antipetismo”, fenômeno que perpassa fronteiras sociais, econômicas, culturais e “comportamentais”. Alimentado que foi por anos, por um poderoso aparato ideológico e de comunicações (e tendo por base objetiva sérias falhas que acompanharam os muitos sucessos dos governos liderados pelo PT), sua manifestação mais evidente é o acelerado crescimento da taxa de rejeição a Haddad, totalmente alinhado com a ascensão das intenções de voto nele e na clara associação do candidato com Lula e com o PT. Assim como no caso da “guerra de valores”, creio que seus efeitos só podem ser minimizados via afirmação de um futuro material sensivelmente melhor do que o presente e muito próximo do passado experimentado pelo povo há poucos anos. Ao ideológico, há que se contrapor o salário, a aposentadoria, o SUS decente e a boa escola pública.

A mim parece, portanto, que o que tem que ser feito para impedir o horror de uma vitória eleitoral do coiso, que levaria o golpe de 2016 às últimas consequências – arrocho total, reprimarização definitiva da economia, desnacionalização, repressão e retrocesso geral –, é uma “operação em pinça”: desmascarar as propostas e diretrizes de Paulo Guedes& Co. (que são as de Temer pioradas), embuçadas no discurso bolsonarista da Ordem e, simultaneamente, explicitar didaticamente o que Haddad e Manuela se propõem a fazer, com urgência e coragem, nos primeiros meses de governo, para aliviar o desemprego, pôr a economia para rodar aceleradamente e recuperar um mínimo de qualidade e agilidade nos serviços públicos.

Iniciativas como a dos metalúrgicos de São Paulo e de Curitiba, alertando os trabalhadores que o general do capitão quer tirar o 13º salário e, com ele, o peru da ceia, os presentes de Natal das crianças e o pagamento de dívidas acumuladas e empurradas, devem se tornar marca cotidiana de uma campanha eleitoral “em cima do lance”.

A determinação de retomar de imediato as milhares de obras paradas, com a contratação de centenas de trabalhadoras e trabalhadores em cada canteiro, tem que se ser martelada à exaustão, como um exemplo muito forte do que pode ser e será feito.

A reafirmação do compromisso democrático, em particular com as mulheres que protagonizam um dos maiores movimentos sociais das últimas décadas e que se contrapõem à violência como solução para a violência e para a insegurança tem que ser feita minuto a minuto e sem cessar.

A busca honesta de alianças partidárias, políticas e sociais para aumentar a repercussão e defesa de tal linha de campanha é absolutamente urgente e essencial.

Para derrotar a barbárie o que tem que ser feito é mostrar ao eleitor como pode ser melhor sua vida real, concreta, material, ao eleger candidatos do Progresso e como certamente será péssima essa mesma vida se, seduzido pelas fumaças da Ordem, deixar o país nas mão de quem o quer como um submisso pobre eterno.

* Artur Araújo é administrador hoteleiro, ex-diretor da Embratur, consultor em gestão pública e privada.

Fonte: Brasil de Fato

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