Ofensiva golpista e a contradição entre a nação e a não nação

Por Ricardo Gebrim*

“Nosso papel é derrotar o golpe nas eleições, sem vacilações e sem gerar ilusões”

Um conceito fundamental da interpretação do Brasil nos ajuda a compreender a dimensão da destruição em curso causada pela ofensiva desencadeada pelo golpe.

Caio Prado Júnior iniciou sua grande obra, “A Formação do Brasil Contemporâneo”, com a afirmação: “Todo povo tem na sua evolução, vista à distância, um certo ‘sentido’. Este se percebe não nos pormenores de sua história, mas no conjunto dos fatos e acontecimentos essenciais que a constituem num largo período de tempo”. Ao tratar de todo o “sentido” da colonização brasileira identificou o conflito central que marca nossa história, como sendo a contradição entre a nação e a não nação.

Temos repetido a cada artigo que forças golpistas se voltam para destruir as bases que, num longo processo de idas e vindas, estruturaram nossa construção nacional, nos mergulhando numa crise de alcance histórico e de muitas dimensões – crises de destino, de projeto, de identidade, de soberania.

Nada mais simbólico do que a destruição do Museu Nacional, nosso maior patrimônio histórico, causado pelo criminoso abandono a que está relegada a preservação de nossa identidade.

Também recentemente lançaram ao incêndio o que havia sobrado da CLT após a chamada Reforma Trabalhista, quando o Supremo Tribunal Federal decide que “é lícita a terceirização ou qualquer outra forma de divisão do trabalho entre pessoas jurídicas distintas, independentemente do objeto social das empresas”, escancarando as portas para que o modelo do Uber passe a ser o caminho regulamentador das relações de trabalho. Com isso, possibilitam que escolas terceirizem professores e hospitais façam o mesmo com médicos e enfermeiros.

O STF assume essa absurda decisão na condição de intérprete da Constituição, isso significa que somente uma mudança constitucional poderá reverter essa destruição das condições de trabalho.

Na educação, com a Reforma Educacional do Ensino Médio, esvaziam o estudo da História e Geografia, abrindo as portas para que o mercado privado da “educação à distância” leve o analfabetismo funcional também ao ensino médio.

O provável passo seguinte é a adoção de um tipo de vouchers, que nos Estados Unidos é chamado de Contas de Poupança da Educação (Education Savings Accounts – ESA). Com os vouchers as famílias podem reter dinheiro na forma de isenção de imposto de renda e aplicar diretamente no pagamento da educação privada, avançando ainda mais na destruição do ensino público.

Essa é a intensa e acelerada ofensiva causada pelo golpe, cada semana destruindo conquistas duramente obtidas num largo período.

As eleições são um momento importante para impedir que obtenham a legitimação desse processo nas urnas, mas a reversão e superação das medidas em curso impõem uma correlação de forças que não se transforma com uma vitória eleitoral.

Um possível e desejado governo que se eleja contrário ao golpe enfrentará um cenário muito mais adverso e pressões incomparavelmente maiores do que foi enfrentado durante o segundo governo Dilma. Nosso papel é derrotar o golpe nas eleições, sem vacilações e sem gerar ilusões.

O sentido histórico de construção de uma nação, apontado por Caio Prado como nosso conflito central, enfrenta um ataque sem precedentes. Retomar nossa existência como Nação soberana e sociedade organizada, exigirá cada vez mais lutadores capazes de compreender a dura realidade que enfrentamos, sem desanimar ou se aferrar a falsas ilusões, preparando-se para uma luta prolongada em que devemos aprender a preservar e construir as forças necessárias.

Ricardo Gebrim é colunista do site Brasil de Fato

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