Angélica Torres: Como assistir noticiários de TV

Na noite do anúncio da intervenção militar no Rio, assistindo aos noticiários da Rede Globo até a madrugada, após anos sem dar Ibope a ela, uma impressão-quase-certeza me remeteu ao que se aprendia no curso de Comunicação da UnB, nos tempos da ditadura militar. Globo e Globonews continuam a ser o braço armado nº 1 dos Estados Unidos em solo brasileiro. Ambas se constituem nos principais quartéis-generais do governo norte-americano e de seus aliados no Brasil, tratado ainda como colônia ou território ocupado, mas tendem a ser percebidas como fieis integrantes do diversificado exército defensor de interesses que não nos beneficiam.

Descobrindo a roda agora? Não. Apenas relembrando as lições, as pesquisas comparadas, os filmes e vídeos das aulas na faculdade de comunicação. Obedientes às ordens ditadas pelo andar superior da empresa  ̶  por sua vez submissa ao andar superior do planeta  ̶ , seus jornalistas, que agem como soldados, pautam os demais veículos e consequentemente, hoje, também os blogueiros e jornalistas independentes, que mesmo lúcidos e críticos se submetem à agenda do festival das farsas propagadas e implantadas confusamente no imaginário dos espectadores.

Esse é o problema da não construção de uma imprensa democrática, popular e insubmissa aos poderosos de plantão e à narrativa de sua mídia capitalista. Outro é um fenômeno inerente ao noticiário televisivo, lição recebida logo dos primeiros anos de curso, com que se aprende a enxergar e evitar a má informação ou a desinformação ao público: são as montagens escandalosas de cenas sequenciadas de assaltos, bombardeios, arrastões, não ocorridos exatamente nos mesmos dias e horários, mas aparentando uma onipresente violência de toda sorte  ̶  como as exibidas pelas duas emissoras na noite da intervenção militar no Rio, que é nada menos do que a convulsionada cidade-sede da perseguida e ambicionada Petrobras…

Usado intencionalmente, esse é um recurso despudoradamente fraudulento segundo a ética jornalística a que se presta juramento no fim do curso, por causar a impressão de realidade viva e simultânea. Quanto mais cenas violentas são exibidas em sequência, mais se tem a sensação de um quadro de gravidade, de uma praça de guerra, caso o texto que as acompanha não apresente estatísticas ou situe com fidedignidade o que se mostra ao público.

A violência que se alastra no país é sim um problema a ser enfrentado, mas não com o exército, que não vai resolver a questão e, pior, que tem carta branca para usar de truculência. O alarmismo da mídia não se justifica, até porque no carnaval deste ano os índices comparados mostraram que ela não foi maior que nos passados, desmentindo portanto esse teatro montado para americano e inglês aplaudirem. Mas neste caso, fica fácil manipular e convencer o espectador para o propósito político camuflado. O carioca vai acreditar no aumento da criminalidade, ou mesmo em sua onipresença na cidade, e aceitar o novo prato amargo que novamente será jogado em cima dos mais pobres, esses que foram assaltados pela política antissocial dos governantes da vez.

Entretanto, se o público não conhece as manhas maquiavélicas da mídia, esta que não pratica jornalismo e sim lobby para poderosos, fica difícil que sua consciência possa crescer e atuar em seu próprio favor. De toda forma, está em processo a batalha travada hoje entre o oligopólio midiático e cada Quixote da imprensa virtual. É animador, por exemplo, perceber com clareza e apontar que não é Sérgio Moro o principal agente da devassa promovida pela Lavajato na Petrobras ou na vida do ex-presidente Lula e família.

Mesmo antes de o juiz da república curitibana entrar em cena vazando informações e conspirando, já estava aqui consolidado o antigo poder televisivo, subserviente a seus superiores externos, invisíveis aos olhos e entendimento da população, ditando as ordens, coordenando e alardeando essa “fã farra” a que estamos assistindo passar.

Temos visto obrigatoriamente essas mesmas novelas tantas e tantas vezes. Uma hora ela vai fatalmente ter o final que precisa e que merece.

 

*Angélica Torres para o BR Popular

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