A mulher selvagem, o carnaval e o fim do bolsonarismo

“O carnaval 2020 deglutiu o bolsonarismo em praça pública”

Observe três reflexões. A primeira vem do samba-enredo da Mangueira. Retrata Jesus como uma mulher negra, oprimida pela violência de gênero e pelo racismo. “Eu sou da Estação Primeira de Nazaré. Rosto negro, sangue índio, corpo de mulher”, diz a letra, que mais adiante avisa: “não tem futuro sem partilha. Nem messias de arma na mão”.

A segunda reflexão vem do livro “O Circuito dos Afetos”, de Vladimir Safatle: “O poder fará tudo para que os livros continuem fechados”, diz o autor. Pense nos ataques a Paulo Freire e na censura a livros, Brasil afora.

A terceira reflexão vem do livro “Mulheres que correm com os lobos”, de Clarissa Pinkola Estés, que pesquisa o arquétipo da mulher selvagem, a mulher não domesticada, a mulher que resiste a ter seu corpo saqueado e mercantilizado. “Por mais que seja proibida, silenciada, podada, enfraquecida, torturada, rotulada de perigosa, louca e de outros depreciativos, a Mulher Selvagem volta à superfície, de tal forma que mesmo a mulher mais tranquila, mais contida, guarda um canto secreto para a Mulher Selvagem”, escreve a autora.

Pense nos ataques à jornalista Patrícia Campos Mello, à deputada Maria do Rosário, à Dilma Rousseff e a tantas outras mulheres que não aceitaram e nunca aceitarão serem tratadas como coisa.

Pense na “deusa-mulher” acorrentada à frente da bateria da Mangueira, rosto negro, sangue índio, corpo de mulher, alma selvagem. Pronta para renascer, tal qual uma fênix negra, selvagem e indomável, a curar as feridas de um país que não nasceu para ser triste.

Pense na arte e nos saberes de um país repleto de conhecimento e que jamais aceitará que os livros voltem a ser fechados. A cultura nos move, mesmo a trancos e barrancos, mas ela nos move. Não permitiremos, como país, a volta aos porões de dor e de sofrimento.

Feminino selvagem

Não há um país sem partilha, sem respeito, sem alteridade. Pode haver em outro lugar. Jamais aqui, nesse Brasil diverso, antropofágico e barroco. É só uma questão de tempo.

Olhe para a afronta de Paulo Guedes às empregadas domésticas. Olhe para a violência sexual de Bolsonaro contra a jornalista Patrícia Campos Mello e todas as outras mulheres. 

O bolsonarismo errou feio ao não perceber que a dominação, na atualidade, não se sustenta mais pela violência desmedida. A dominação se dá pelo ajustamento suave, quase indolor, a uma falsa liberdade, regida pelas regras do mercado.

Bolsonaristas não leem Marx e muito menos Foucault. Se o fizessem, saberiam que já está tudo dominado e não precisa se esforçar demais. É só deixar o bonde andar.

O carnaval 2020 deglutiu o bolsonarismo em praça pública. Digeriu e vomitou uma gosma mal cheirosa e com jeito de coisa velha. País afora, o que se viu foi o tom da contestação, do descontentamento. É um caminho sem volta.

Dia 15 está marcada uma manifestação em defesa do bolsonarismo. Nesse dia, se você fechar os olhos ouvirá, ao longe, o canto de um cisne. Ouvirá os estertores de uma ideologia que detonou a si mesma. Se olhar para o céu verás, ao longe, a fênix negra, carregando o próprio ninho em direção ao templo do sol. O momento é de renascer.

Anote e depois me cobre: seremos salvos pela arte, pela cultura e pelo feminino selvagem que habita cada um de nós. “Oxalá mostrou ao próprio Cristo como ele era mulato… Minha fé minha cultura”, nos ensina Marcelo Yuka.

Axé Brasil!


Marques Casara

Jornalista especializado em investigação de cadeias produtivas. Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC/SP – para o Brasil de Fato.

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